domingo, 15 de julho de 2012

O pecado de ser homem



           Como em muitas coisas na vida, dentre tantas divergências existe sempre algo que iguala o homem e a mulher. O homem nasceu para viver no paraíso, enquanto a mulher nasceu para leva-lo ao inferno, entretanto ambos são filhos de Deus. O gênero feminino é conhecido como sexo frágil, portanto o masculino seria o forte, no entanto ambos choram e às vezes o ultimo mais que o primeiro. O pecado é uma sedução que não distingue sexo, cor ou idade. O homem e a mulher carregam consigo a marca da violação, a indignação do criador frente à fraqueza de sua cria. E fez-se a verdade, o discernimento entre o bem e o mal, o fruto proibido que escorre doce o suco da boca. O pecado capital é aquele que une os gêneros em uma conexão evolutiva e religiosa, imagens enantiomorfas de dentro para fora, já nascemos do pecado, como pecadores, para viver do e com o pecado, é a maravilha da essência humana. Nada de culpa, estoicismo e carpe dien no alucinante desejo de viver o que a vida tem de melhor. Em suas devidas proporções, intensidades e discordâncias por distúrbios neurobiológicos que um ou outro apresentem, a mulher é mais avarenta, luxuosa e, principalmente invejosa; o homem tem mais gula, ira e preguiça – com um churrasco, cerveja e futebol – mas está na hora de a igreja iniciar um novo concílio, sem caça aos hereges ou uma reforma antiquada com cara de contra reforma, trancar-se por anos – para o alivio de todos – concertar alguns milagres e adicionar um novo pecada à sua lista de reprovados no teste da hipocrisia: o pecado de ser homem. Nada mais digno ter seu próprio pecado o ser que peca até por não estar pecando.
            Casal no restaurante. Homem de terno preto e mulher de vestido vermelho. Ela passa graciosamente o dedo na boca da taça e olha para o marido com cara de reprovação. Você não reparou não é? É claro que sim, meu amor, o seu cabelo está lindo!  Não é meu cabelo, o cabelo eu cortei ontem! Mas o quê... Você não viu minha unha? Os pontinhos brancos que eu fiz na ponta do dedo mindinho! Paguei cinquenta reais para uma indiana fazer isso e você não repara, a mamãe tinha razão, você não me merece mesmo! Ele larga o garfo e olha nos olhos da mulher. Me desculpe, mas eu sou homem, não tenho essa visão microscópica que vocês mulheres tem. Casal andando no shopping. Passam em frente a uma loja. A mulher está olhando para a bolsa da outra que está na sua direita. Nossa, amor, você viu aquele sapato na vitrine, é da única cor que eu não tenho. Onde? Você nunca vê nada mesmo ou só não quer comprar pra mim? Mas... Aqui, na minha esquerda, eu não acredito que você não viu! Se não quer comprar, fala! Ele para de andar e respira fundo buscando paciência. Meu amor, eu sou homem, não tenho olhos nas costas como você. Casal assistindo filme. O herói que salvara sua amada tomando um tiro acaba de morrer. A mulher em prantos, embotada por toda a sua empatia estrogênica que chega a exalar. Amor... Ela olha para ele. Você não está chorando? Hã, o quê? Você estava dormindo? Hã... Quanto foi o jogo? Seu insensível, não consegue se emocionar com nada, nunca derrama uma lágrima! Ele esfrega os olhos e fala ainda com sono. Veja bem, o homem sofreu uma evolução diferenciada desde a pré-história, tendo que se acostumar a ver seus companheiros morrerem em guerras e caçadas e encarar isso com frieza e seriedade, as nossas glândulas lacrimais estão atrofiando, vão virar órgãos vestigiais, não temos culpa disso, a mulher não, chora até através dos pés.
          Como vedes caro leitor, a mulher condena o homem pelo simples e óbvio fato de ele ser homem e agir como tal, talvez este seja um dos fatores que determinam o crescente número de mulheres homo afetivas, mas esta discussão filosófico-biológica não nos convém agora. Existem alguns homens que até tentam mergulhar no universo da essência feminina e decifrar os mistérios com cheiro de rosas, mas é inútil, porque a mulher é um ser que está em constante mutação, é a dialética encarnada e, convenhamos, criada para ser indecifrável, ou seja, a mulher é um enigma. O homem, porém, é um pecador que tem como penitência sofrer os castigos e privações que a mulher lhe impõe por não ser compreendida. Mas qual seria a graça em entender as mulheres? O melhor mesmo é ser ignorante quanto às disfunções da cabeça feminina e debochar da mulher para aliviar a barra – e ficar por cima para variar – chamando-a de mutante e extraterreste. É assim, jamais vai mudar. E o homem vai continuar necessitando da mulher, mesmo não a entendendo e sofrendo por sua condição, enquanto elas cada vez tornam-se mais independentes. Vai chegar o dia em que a mulher vai evoluir para um ser partenogenético e será decretada a extinção do gênero masculino. Mas enquanto isso não acontece e a mulher continua precisando de um x ou y, o homem permanece no purgatório buscando paciência e levando na esportiva, às vezes até ironizando de suas penitências. Também, já vale o costume e a necessidade que ele tem da mulher em todos os aspectos para sobreviver. E não há muito o que se fazer, porque afinal, é um pecado ser homem.

sábado, 9 de junho de 2012

Despedida






Ele ficou parado por um tempo que ainda não sei determinar, como que se esperasse a minha reação. Era duro saber que partia, assim tão depressa. Parece que o tempo foi tão curto, que encurtaram-se as horas e a vida foi encurtando junto. Ele não quis saber de delongas, virou de costas e foi andando, não olhou para trás, pois não queria que eu visse que seu coração partia-se junto com sua partida. Era uma tarde nublada, o sol prendia-se no horizonte, em um esforço tremendo para não cair na imensidão do outro dia que começava, quando o meu terminava e instalava-se, levemente a noite. Os seus passos eram decididos e escancaravam uma convicção desleal, que me deixava sem reação. Eu nada podia fazer, ou corria e me atirava em seus pés e implorava que ficasse, ou não interferia no seu destino e deixava-o ser feliz em sua nova vida. Nem toda vida é nova e nem tudo que é novo prediz felicidade. Tudo a minha volta começou a esquentar, meu coração acelerou em um ritmo frenético, ele podia nunca mais voltar quando voltasse, já que não seria o mesmo, haveria crescido em vários sentidos, teria toda a independência que sempre me neguei a dar-lhe. Ele continua andando e parece negar meu desespero, ele sabe que estou quase para gritar e deixar a minha angustia prevalecer. Para um carro preto e alguém de dentro abre a porta, escuto risos e uma música Flash Back tocando, alguém tem pressa, pois não desliga o carro e parece continuar acelerando, em sua mente, tão atordoada pela insanidade que é posta, pela velocidade de tudo, onde tudo tem que estar sempre acelerado como que precisasse estar sempre à frente da luz, a frente do limite que se impõe ao próprio limite, que é um espectro que perpassa os limites do inimaginável. Ele finge que vai entrar no carro, mas vira e sai correndo, atira-se nos meus braços em um abraço derradeiro. Caio sentado no chão e começo a chorar, ele olha nos meus olhos e limpa as lágrimas com os dedos sujos de chocolate. Não esquece de me buscar amanhã papai. Consenti com a cabeça e deixei-o ir. O coleguinha grita em um volume mais alto que o som. Meu filho sai correndo e atira-se para dentro do carro, que sai em disparada para a fila de pontos vermelhos atrás do sinal. Meu filho crescera, ia dormir pela primeira vez fora de casa, esperei jamais ter que ver o dia, em que ele sairia de casa e só voltaria no amanhecer de um dia improvável, no importuno ciclo da vida.    

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Vitória


 


          Era mais um dia qualquer, daqueles que passam despercebidos como estranhos na rua. Eu fazia o caminho de volta para casa, como sempre o fizera ao sair da faculdade.  O sol escaldante de uma hora e a fumaça dos automóveis, como de costume, complicando meu trajeto que nunca tinha nada de interessante. Quando passei em frente à igreja, repeti aquele gesto que as pessoas fazem de se benzer, o fiz porque era conveniente, porque papai havia me dito que eu devia fazer, a final já era um gesto automático, daqueles que fazemos por movimento involuntário, como colocar o cinto ao entrar no carro, mesmo que muitas pessoas não saibam o que significa nenhum dos dois gestos, apenas os fazem porque, ou morrem, ou esquecem que vão morrer, a morte é sempre a motivadora, foi por isso que me benzi, para não perder a esperança de não morrer. Ao passar pela segunda escada que dava para a porta da igreja, senti algo prendendo a barra da minha calça, instintivamente puxei a perna para me livrar do empecilho, sem olhar para baixo e ciente de que era hora do almoço, dei o próximo passo, foi quando ouvi um gemidinho vindo do chão. Olhei para a calçada e vi uma criança, com as mãos espalmadas no chão, me olhando com os olhos cerrados contra o sol, ao seu lado um cachorro dormia sem se importar com a quentura do inicio de tarde. Você me dá uma moeda? Pensei em apenas ignorar aquela cena e seguir em frente, a final, existem milhares de crianças que vivem nas ruas e pedem esmolas, que diferença a minha falsa comoção poderia fazer? Não, eu não iria comprar uma carta branca para o egoísmo fingindo ser empático, eu não iria ajudar aquela criança para mais tarde deixar um cego ser atropelado ou não ceder meu lugar a uma senhora de bengala no ônibus. É por isso que eu preferia não ajudar ninguém, não demonstrar empatia. As pessoas só ajudam as outras porque querem ser ajudadas quando precisarem, e é por isso que eu preferia não depender de ninguém.
       
        Continuei olhando para aquela menina que agora segurava firme em minha perna, ela estava prestes a chorar, de fome, tristeza, angústia, saudades talvez, dos pais, dos irmãos, da escola, de alguém. Abaixei-me e fiquei em frente a ela. Você está com fome? Uhum. Ela balançou a cabeça levemente para frente. Eu não queria ajuda-la, mas senti tristeza, angústia, saudades dos meus pais, dos irmãos, de alguém. E tive vontade de chorar. Eu tinha algumas moedas no bolso, mas o que ela faria com elas se eu as desse? Ela podia estar sendo usada por alguém mais velho para conseguir dinheiro, a mãe alcoólatra para sustentar o vicio, o pai traficante para aumentar a renda ou um político corrupto para comprar mais votos. Havia um pequeno restaurante na esquina, decidi então leva-la até lá e pagar-lhe um almoço, não encarei minha atitude como uma desculpa para ser egoísta, não mais, e sim como coragem, coragem de dar a cara-a-tapa, de não ter medo de ser criticado, de não ligar para a sociedade, coragem de, pelo menos por alguns minutos, deixar de ser tão humano. Vamos, venha comigo! Eu lhe estendi a mão. Ela me olhou com um olhar indagativo, medroso, esperançoso. Vamos comer alguma coisa. Um largo sorriso logo despontou naquele rosto infantil, ingênuo, verdadeiro. Ela se curvou e cochichou próximo ao cachorro. Fique dormindo aqui Sorvete, eu já volto. Ela pegou minha mão e se levantou. Vamos logo que eu estou com uma fome de dois dias! Eu não senti pena, me senti feliz em saber que a fome dela seria saciada. Agora, vendo-a de pé, notei que ela devia ter no máximo oito anos, tinha o rosto sujo e as mãos feridas. Andamos uns vinte metros até chegar ao restaurante.
      
        Entramos no recinto recebidos por olhares desconfiados. Haviam varias mesas vazias, o que era estranho para o horário. Mesas mais afastadas, quase escondidas, coladas à parede, onde ninguém nos veria; mesas centrais, em baixo do ar-condicionado, onde o garçom mais iria parar e todos do restaurante olhariam; mesas no vão de entrada, em frente as grandes janelas de vidro, onde todos da rua olhariam. Você escolhe nossa mesa. Com a singeleza da humildade dos movimentos infantis, ela saiu na frente e percorreu o salão do pequeno restaurante, como uma bailarina, sorrindo e dançando magicamente com as sandálias desgastadas. Ela foi até a mesa mais afastada e sentou-se. A única isolada no fundo do salão, onde a luz era fraca, devia ser quente, e nem o garçom, os clientes ou os transeuntes da rua nos viriam. Percebi que uma moça da recepção já se dirigia a mesa, disposta a retirar aquela criança e acabar com sua felicidade, destruir um sonho e contrariar expectativas. Adiantei-me na frente da funcionaria e me sentei em frente à menina, que balançava as pernas, já com um grande guardanapo posto no colo. Ela está comigo, traga o cardápio. A moça alta, meio magra e esguia, com traços asiáticos e postura africana me encarrou, olhou para a criança e voltou ao balcão. Logo retornou com o cardápio e colocou em minha frente. Não temos o filé, nem a salada de batatas. A mulher voltou, comentou algo com o gerente e sentou-se em uma cadeira na posição perfeita para nos observar.
     
          E então, o que vamos comer? Virei o cardápio e mostrei-lhe. Ela passou a vista meio distraída, desviada, despercebida. Você não sabe ler não é? Ela se limitou a balançar a cabeça. Tem lasanha? Procurei no cardápio. Lasanha de frango e de carne. De carne, os frangos são bonitos. Você quer refrigerante? Não! Suco de laranja, refrigerante faz mal. Achei graça e ala riu junto comigo. Era evidente a expectativa, na forma que ela olhava para o vidro de sal, como virava a cabeça ao ver o garçom passar. Fiz um sinal à moça que nos fitava meio sem compreender a cena. Ela repetiu o meu sinal para o lado e logo um garçom de pouco mais de um metro e meio veio em nossa direção. O que desejam? Queremos duas lasanhas e dois sucos de laranja. Temos lasanha de carne e de frango. De carne, os frangos são bonitos. Pisquei para ela de canto de olho. Ele anotou o nosso pedido e se retirou para a cozinha. Quando o garçom sumiu ela ficou rindo, tentando esconder os poucos dentes maltratados. O que foi? Ele é engraçado. Baixinho e careca! Logo nosso pedido chegou. O garçom depositou nossos pratos com o suco ao lado. Ninguém disse nada. Ela pegou a colher e, tentando conter a ânsia de devorar tudo de uma só vez, foi cortando a lasanha em pedaços. Comeu, colocou sal, fez cara feia, colocou pimenta, queimou-se e tomou todo o suco. Ela terminou e olhou para o meu prato, ainda intocado. Pode comer se quiser, eu não estou com fome. Empurrei meu prato e troquei nossos copos. Ela comeu tudo, dessa vez já parecia estar satisfeita. Ela me olhou com as lágrimas a encobrir-lhe os olhos. Obrigada, eu estava com muita fome mesmo. Vamos então, porque à uma hora dessas o Sorvete já deve ter acordado. Ah! O Sorvete! Não, ele ainda está dormindo. Ele é muito obediente.
      
         Fomos até o caixa, paguei no cartão e a moça da recepção pareceu conformar-se. Antes que saíssemos, a menina puxou minha camisa, curvei-me para escutá-la. Você pode comprar um pedaço de bolo? Por favor. Hoje é aniversário do sorvete. E como você sabe que é hoje o aniversário dele? Eu não sei, mas ele está tão triste. Está certo. Comprei uma fatia de bolo de chocolate e voltamos para frente da igreja. O trânsito estava mais complicado. O céu estava fechado, iria chover. Típico. Ela sentou-se ao lado do cachorro, que continuava na mesma posição de quando havíamos saído, e colocou o bolo na frente dele. Abaixei-me em frente a ela. Eu devia voltar para casa, pois logo teria de voltar para a faculdade. Você ainda não me disse o seu nome. Ah, sim. Eu me chamo Vitória. Certo Vitória, você vai ficar bem? Vou sim. Vou esperar o Sorvete acordar para cantar parabéns. Muito bem, eu tenho que ir então. Você vai voltar aqui? Vou sim, sempre que puder. Ela me deu um abraço. Um abraço que há muito tempo eu não recebia. Um abraço verdadeiro. Senti uma satisfação abraçar-me junto e me senti feliz. Olhei-a mais uma vez e depois com mais atenção para o cachorro. Levantei-me, virei de costas e andei. Ela continuou esperando o Sorvete acordar, mas agora eu sabia que ele não acordaria. Ele estava em um sono do qual não se tem volta, o sono que carrega as lembranças, extirpa as mágoas e acaba com a fome. O sono, onde os sonhos nunca se realizam.

sábado, 3 de março de 2012

Narrativa Póstuma



                  - Pedro, acorde! Dizia ela, e eu fingia dormir, só para escutar mais um pouco a sua voz. Ela me chamava mais umas duas ou três vezes, até que beijava a minha testa e voltava para a cozinha. Eu abria os olhos e a chamava para a cama, ela vinha, jogava-se ao meu lado e me enroscava à cabeça. Assim eram todos os dias: eu tomava o café, beijava a mulher, os rebentos e saía de casa como se nunca mais fosse voltar.
                  Meu local de trabalho era um andaime que ficava a vinte metros de altura; quanto mais ele subia minha vida só fazia descer. Das oito da manha às oito da noite eu pintava paredes, mas um dia a tinta negra da falha humana caiu sobre meus olhos, embaçando assim a minha vista.
                 Estava no final da tarde, eu já me preparava para encerrar o serviço e voltar para casa quando o cabo de aço que sustentava meu andaime arrebentou. Despenquei quase dez andares até cair no meio da rua. Senti meu coração lutando para não parar e perdi completamente o controle do corpo.

                Eu não conseguia me mexer, mas podia escutar. Ouvi muitos barulhos mas, principalmente, buzinas e gente reclamando de sua falta de sorte, escutei as ambulância chegando, os bombeiros e a imprensa. Ouvi os paramédicos tentando me reanimar e, finalmente, a voz de minha mulher: Pedro, acorde! Disse ela, e eu fingi dormir, só para não ter mais que acordar.    

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Roleta Russa


Uma bala
No tambor ou no fundo da sua vida
Seis buracos
Pura sorte sem ter medo sem tremer
O peso da mão insustentável
Na força subumana
Que levanta acima da cabeça
Ou atrás ou dentro
Ou onde nem exista cabeça
Seis sentidos
É na hora derradeira que desperta
O sexto sentido
Percebe-se a chegada da morte
Que não existe
Roda tambor
Roda destino
Rola suor amargo e doce
Sem um flashe de lembranças
Silêncio
Um disparo inconsciente
No subconsciente mais profundo da razão
Um estalo oco
Sem eco
A percepção
Um adeus calado
E a vida resignada em função da morte que não veio