Como em muitas coisas na vida,
dentre tantas divergências existe sempre algo que iguala o homem e a mulher. O
homem nasceu para viver no paraíso, enquanto a mulher nasceu para leva-lo ao
inferno, entretanto ambos são filhos de Deus. O gênero feminino é conhecido
como sexo frágil, portanto o masculino seria o forte, no entanto ambos choram e
às vezes o ultimo mais que o primeiro. O pecado é uma sedução que não distingue
sexo, cor ou idade. O homem e a mulher carregam consigo a marca da violação, a
indignação do criador frente à fraqueza de sua cria. E fez-se a verdade, o
discernimento entre o bem e o mal, o fruto proibido que escorre doce o suco da
boca. O pecado capital é aquele que une os gêneros em uma conexão evolutiva e
religiosa, imagens enantiomorfas de dentro para fora, já nascemos do pecado,
como pecadores, para viver do e com o pecado, é a maravilha da essência humana.
Nada de culpa, estoicismo e carpe dien
no alucinante desejo de viver o que a vida tem de melhor. Em suas devidas
proporções, intensidades e discordâncias por distúrbios neurobiológicos que um
ou outro apresentem, a mulher é mais avarenta, luxuosa e, principalmente
invejosa; o homem tem mais gula, ira e preguiça – com um churrasco, cerveja e
futebol – mas está na hora de a igreja iniciar um novo concílio, sem caça aos
hereges ou uma reforma antiquada com cara de contra reforma, trancar-se por anos
– para o alivio de todos – concertar alguns milagres e adicionar um novo pecada
à sua lista de reprovados no teste da hipocrisia: o pecado de ser homem. Nada
mais digno ter seu próprio pecado o ser que peca até por não estar pecando.
Casal no restaurante. Homem de
terno preto e mulher de vestido vermelho. Ela passa graciosamente o dedo na
boca da taça e olha para o marido com cara de reprovação. Você não reparou não
é? É claro que sim, meu amor, o seu cabelo está lindo! Não é meu cabelo, o cabelo eu cortei ontem!
Mas o quê... Você não viu minha unha? Os pontinhos brancos que eu fiz na ponta
do dedo mindinho! Paguei cinquenta reais para uma indiana fazer isso e você não
repara, a mamãe tinha razão, você não me merece mesmo! Ele larga o garfo e olha
nos olhos da mulher. Me desculpe, mas eu sou homem, não tenho essa visão
microscópica que vocês mulheres tem. Casal andando no shopping. Passam em
frente a uma loja. A mulher está olhando para a bolsa da outra que está na sua
direita. Nossa, amor, você viu aquele sapato na vitrine, é da única cor que eu
não tenho. Onde? Você nunca vê nada mesmo ou só não quer comprar pra mim?
Mas... Aqui, na minha esquerda, eu não acredito que você não viu! Se não quer
comprar, fala! Ele para de andar e respira fundo buscando paciência. Meu amor,
eu sou homem, não tenho olhos nas costas como você. Casal assistindo filme. O
herói que salvara sua amada tomando um tiro acaba de morrer. A mulher em
prantos, embotada por toda a sua empatia estrogênica que chega a exalar.
Amor... Ela olha para ele. Você não está chorando? Hã, o quê? Você estava
dormindo? Hã... Quanto foi o jogo? Seu insensível, não consegue se emocionar
com nada, nunca derrama uma lágrima! Ele esfrega os olhos e fala ainda com
sono. Veja bem, o homem sofreu uma evolução diferenciada desde a pré-história,
tendo que se acostumar a ver seus companheiros morrerem em guerras e caçadas e
encarar isso com frieza e seriedade, as nossas glândulas lacrimais estão atrofiando,
vão virar órgãos vestigiais, não temos culpa disso, a mulher não, chora até
através dos pés.
Como vedes caro leitor, a mulher condena o homem pelo simples e óbvio
fato de ele ser homem e agir como tal, talvez este seja um dos fatores que
determinam o crescente número de mulheres homo afetivas, mas esta discussão
filosófico-biológica não nos convém agora. Existem alguns homens que até tentam
mergulhar no universo da essência feminina e decifrar os mistérios com cheiro
de rosas, mas é inútil, porque a mulher é um ser que está em constante mutação,
é a dialética encarnada e, convenhamos, criada para ser indecifrável, ou seja,
a mulher é um enigma. O homem, porém, é um pecador que tem como penitência
sofrer os castigos e privações que a mulher lhe impõe por não ser compreendida.
Mas qual seria a graça em entender as mulheres? O melhor mesmo é ser ignorante quanto
às disfunções da cabeça feminina e debochar da mulher para aliviar a barra – e
ficar por cima para variar – chamando-a de mutante e extraterreste. É assim,
jamais vai mudar. E o homem vai continuar necessitando da mulher, mesmo não a
entendendo e sofrendo por sua condição, enquanto elas cada vez tornam-se mais
independentes. Vai chegar o dia em que a mulher vai evoluir para um ser partenogenético
e será decretada a extinção do gênero masculino. Mas enquanto isso não acontece
e a mulher continua precisando de um x ou y, o homem permanece no purgatório
buscando paciência e levando na esportiva, às vezes até ironizando de suas
penitências. Também, já vale o costume e a necessidade que ele tem da mulher em
todos os aspectos para sobreviver. E não há muito o que se fazer, porque
afinal, é um pecado ser homem.









