quarta-feira, 2 de maio de 2012

Vitória


 


          Era mais um dia qualquer, daqueles que passam despercebidos como estranhos na rua. Eu fazia o caminho de volta para casa, como sempre o fizera ao sair da faculdade.  O sol escaldante de uma hora e a fumaça dos automóveis, como de costume, complicando meu trajeto que nunca tinha nada de interessante. Quando passei em frente à igreja, repeti aquele gesto que as pessoas fazem de se benzer, o fiz porque era conveniente, porque papai havia me dito que eu devia fazer, a final já era um gesto automático, daqueles que fazemos por movimento involuntário, como colocar o cinto ao entrar no carro, mesmo que muitas pessoas não saibam o que significa nenhum dos dois gestos, apenas os fazem porque, ou morrem, ou esquecem que vão morrer, a morte é sempre a motivadora, foi por isso que me benzi, para não perder a esperança de não morrer. Ao passar pela segunda escada que dava para a porta da igreja, senti algo prendendo a barra da minha calça, instintivamente puxei a perna para me livrar do empecilho, sem olhar para baixo e ciente de que era hora do almoço, dei o próximo passo, foi quando ouvi um gemidinho vindo do chão. Olhei para a calçada e vi uma criança, com as mãos espalmadas no chão, me olhando com os olhos cerrados contra o sol, ao seu lado um cachorro dormia sem se importar com a quentura do inicio de tarde. Você me dá uma moeda? Pensei em apenas ignorar aquela cena e seguir em frente, a final, existem milhares de crianças que vivem nas ruas e pedem esmolas, que diferença a minha falsa comoção poderia fazer? Não, eu não iria comprar uma carta branca para o egoísmo fingindo ser empático, eu não iria ajudar aquela criança para mais tarde deixar um cego ser atropelado ou não ceder meu lugar a uma senhora de bengala no ônibus. É por isso que eu preferia não ajudar ninguém, não demonstrar empatia. As pessoas só ajudam as outras porque querem ser ajudadas quando precisarem, e é por isso que eu preferia não depender de ninguém.
       
        Continuei olhando para aquela menina que agora segurava firme em minha perna, ela estava prestes a chorar, de fome, tristeza, angústia, saudades talvez, dos pais, dos irmãos, da escola, de alguém. Abaixei-me e fiquei em frente a ela. Você está com fome? Uhum. Ela balançou a cabeça levemente para frente. Eu não queria ajuda-la, mas senti tristeza, angústia, saudades dos meus pais, dos irmãos, de alguém. E tive vontade de chorar. Eu tinha algumas moedas no bolso, mas o que ela faria com elas se eu as desse? Ela podia estar sendo usada por alguém mais velho para conseguir dinheiro, a mãe alcoólatra para sustentar o vicio, o pai traficante para aumentar a renda ou um político corrupto para comprar mais votos. Havia um pequeno restaurante na esquina, decidi então leva-la até lá e pagar-lhe um almoço, não encarei minha atitude como uma desculpa para ser egoísta, não mais, e sim como coragem, coragem de dar a cara-a-tapa, de não ter medo de ser criticado, de não ligar para a sociedade, coragem de, pelo menos por alguns minutos, deixar de ser tão humano. Vamos, venha comigo! Eu lhe estendi a mão. Ela me olhou com um olhar indagativo, medroso, esperançoso. Vamos comer alguma coisa. Um largo sorriso logo despontou naquele rosto infantil, ingênuo, verdadeiro. Ela se curvou e cochichou próximo ao cachorro. Fique dormindo aqui Sorvete, eu já volto. Ela pegou minha mão e se levantou. Vamos logo que eu estou com uma fome de dois dias! Eu não senti pena, me senti feliz em saber que a fome dela seria saciada. Agora, vendo-a de pé, notei que ela devia ter no máximo oito anos, tinha o rosto sujo e as mãos feridas. Andamos uns vinte metros até chegar ao restaurante.
      
        Entramos no recinto recebidos por olhares desconfiados. Haviam varias mesas vazias, o que era estranho para o horário. Mesas mais afastadas, quase escondidas, coladas à parede, onde ninguém nos veria; mesas centrais, em baixo do ar-condicionado, onde o garçom mais iria parar e todos do restaurante olhariam; mesas no vão de entrada, em frente as grandes janelas de vidro, onde todos da rua olhariam. Você escolhe nossa mesa. Com a singeleza da humildade dos movimentos infantis, ela saiu na frente e percorreu o salão do pequeno restaurante, como uma bailarina, sorrindo e dançando magicamente com as sandálias desgastadas. Ela foi até a mesa mais afastada e sentou-se. A única isolada no fundo do salão, onde a luz era fraca, devia ser quente, e nem o garçom, os clientes ou os transeuntes da rua nos viriam. Percebi que uma moça da recepção já se dirigia a mesa, disposta a retirar aquela criança e acabar com sua felicidade, destruir um sonho e contrariar expectativas. Adiantei-me na frente da funcionaria e me sentei em frente à menina, que balançava as pernas, já com um grande guardanapo posto no colo. Ela está comigo, traga o cardápio. A moça alta, meio magra e esguia, com traços asiáticos e postura africana me encarrou, olhou para a criança e voltou ao balcão. Logo retornou com o cardápio e colocou em minha frente. Não temos o filé, nem a salada de batatas. A mulher voltou, comentou algo com o gerente e sentou-se em uma cadeira na posição perfeita para nos observar.
     
          E então, o que vamos comer? Virei o cardápio e mostrei-lhe. Ela passou a vista meio distraída, desviada, despercebida. Você não sabe ler não é? Ela se limitou a balançar a cabeça. Tem lasanha? Procurei no cardápio. Lasanha de frango e de carne. De carne, os frangos são bonitos. Você quer refrigerante? Não! Suco de laranja, refrigerante faz mal. Achei graça e ala riu junto comigo. Era evidente a expectativa, na forma que ela olhava para o vidro de sal, como virava a cabeça ao ver o garçom passar. Fiz um sinal à moça que nos fitava meio sem compreender a cena. Ela repetiu o meu sinal para o lado e logo um garçom de pouco mais de um metro e meio veio em nossa direção. O que desejam? Queremos duas lasanhas e dois sucos de laranja. Temos lasanha de carne e de frango. De carne, os frangos são bonitos. Pisquei para ela de canto de olho. Ele anotou o nosso pedido e se retirou para a cozinha. Quando o garçom sumiu ela ficou rindo, tentando esconder os poucos dentes maltratados. O que foi? Ele é engraçado. Baixinho e careca! Logo nosso pedido chegou. O garçom depositou nossos pratos com o suco ao lado. Ninguém disse nada. Ela pegou a colher e, tentando conter a ânsia de devorar tudo de uma só vez, foi cortando a lasanha em pedaços. Comeu, colocou sal, fez cara feia, colocou pimenta, queimou-se e tomou todo o suco. Ela terminou e olhou para o meu prato, ainda intocado. Pode comer se quiser, eu não estou com fome. Empurrei meu prato e troquei nossos copos. Ela comeu tudo, dessa vez já parecia estar satisfeita. Ela me olhou com as lágrimas a encobrir-lhe os olhos. Obrigada, eu estava com muita fome mesmo. Vamos então, porque à uma hora dessas o Sorvete já deve ter acordado. Ah! O Sorvete! Não, ele ainda está dormindo. Ele é muito obediente.
      
         Fomos até o caixa, paguei no cartão e a moça da recepção pareceu conformar-se. Antes que saíssemos, a menina puxou minha camisa, curvei-me para escutá-la. Você pode comprar um pedaço de bolo? Por favor. Hoje é aniversário do sorvete. E como você sabe que é hoje o aniversário dele? Eu não sei, mas ele está tão triste. Está certo. Comprei uma fatia de bolo de chocolate e voltamos para frente da igreja. O trânsito estava mais complicado. O céu estava fechado, iria chover. Típico. Ela sentou-se ao lado do cachorro, que continuava na mesma posição de quando havíamos saído, e colocou o bolo na frente dele. Abaixei-me em frente a ela. Eu devia voltar para casa, pois logo teria de voltar para a faculdade. Você ainda não me disse o seu nome. Ah, sim. Eu me chamo Vitória. Certo Vitória, você vai ficar bem? Vou sim. Vou esperar o Sorvete acordar para cantar parabéns. Muito bem, eu tenho que ir então. Você vai voltar aqui? Vou sim, sempre que puder. Ela me deu um abraço. Um abraço que há muito tempo eu não recebia. Um abraço verdadeiro. Senti uma satisfação abraçar-me junto e me senti feliz. Olhei-a mais uma vez e depois com mais atenção para o cachorro. Levantei-me, virei de costas e andei. Ela continuou esperando o Sorvete acordar, mas agora eu sabia que ele não acordaria. Ele estava em um sono do qual não se tem volta, o sono que carrega as lembranças, extirpa as mágoas e acaba com a fome. O sono, onde os sonhos nunca se realizam.