- Pedro, acorde! Dizia ela, e
eu fingia dormir, só para escutar mais um pouco a sua voz. Ela me chamava mais
umas duas ou três vezes, até que beijava a minha testa e voltava para a
cozinha. Eu abria os olhos e a chamava para a cama, ela vinha, jogava-se ao meu
lado e me enroscava à cabeça. Assim eram todos os dias: eu tomava o café,
beijava a mulher, os rebentos e saía de casa como se nunca mais fosse voltar.
Meu local de trabalho era um
andaime que ficava a vinte metros de altura; quanto mais ele subia minha vida
só fazia descer. Das oito da manha às oito da noite eu pintava paredes, mas um
dia a tinta negra da falha humana caiu sobre meus olhos, embaçando assim a
minha vista.
Estava no final da tarde, eu
já me preparava para encerrar o serviço e voltar para casa quando o cabo de aço
que sustentava meu andaime arrebentou. Despenquei quase dez andares até cair no
meio da rua. Senti meu coração lutando para não parar e perdi completamente o
controle do corpo.
Eu não conseguia me mexer, mas
podia escutar. Ouvi muitos barulhos mas, principalmente, buzinas e gente
reclamando de sua falta de sorte, escutei as ambulância chegando, os bombeiros
e a imprensa. Ouvi os paramédicos tentando me reanimar e, finalmente, a voz de
minha mulher: Pedro, acorde! Disse ela, e eu fingi dormir, só para não ter mais
que acordar. 