sábado, 3 de março de 2012

Narrativa Póstuma



                  - Pedro, acorde! Dizia ela, e eu fingia dormir, só para escutar mais um pouco a sua voz. Ela me chamava mais umas duas ou três vezes, até que beijava a minha testa e voltava para a cozinha. Eu abria os olhos e a chamava para a cama, ela vinha, jogava-se ao meu lado e me enroscava à cabeça. Assim eram todos os dias: eu tomava o café, beijava a mulher, os rebentos e saía de casa como se nunca mais fosse voltar.
                  Meu local de trabalho era um andaime que ficava a vinte metros de altura; quanto mais ele subia minha vida só fazia descer. Das oito da manha às oito da noite eu pintava paredes, mas um dia a tinta negra da falha humana caiu sobre meus olhos, embaçando assim a minha vista.
                 Estava no final da tarde, eu já me preparava para encerrar o serviço e voltar para casa quando o cabo de aço que sustentava meu andaime arrebentou. Despenquei quase dez andares até cair no meio da rua. Senti meu coração lutando para não parar e perdi completamente o controle do corpo.

                Eu não conseguia me mexer, mas podia escutar. Ouvi muitos barulhos mas, principalmente, buzinas e gente reclamando de sua falta de sorte, escutei as ambulância chegando, os bombeiros e a imprensa. Ouvi os paramédicos tentando me reanimar e, finalmente, a voz de minha mulher: Pedro, acorde! Disse ela, e eu fingi dormir, só para não ter mais que acordar.